domingo, 2 de dezembro de 2007

One Art




Decidi postar este poema da Elizabeth Bishop, porque tenho pensado muito no desprendimento, aquilo que tanta gente aconselha que tenhamos; desprender-se das coisas, das pessoas, dos lugares... Será mesmo possível fazê-lo?
Caros leitores, com vocês a resposta de Mrs. Bishop!

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One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Tradução:
Uma Arte
A arte de perder não é difícil de aprender;
tantas coisas parecem feitas com o propósito
da perda, que o perdê-las não é desastre.


Perca algo a cada dia. Aceite o susto
de chaves perdidas, e a hora desperdiçada.
A arte de perder não é difícil de aprender.

Pratique perder mais coisas, perder mais rápido:
lugares, e nomes, e onde pensou passar as férias.
Nenhuma destas perdas trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. E olhe! A última,
ou a penúltima, de minhas três casas queridas se foi.
A arte de perder não é difícil de aprender.

Perdi duas cidades, tão deliciosas. E, pior,
alguns reinos que tive, dois rios, um continente.
Sinto falta deles, mas não foi um desastre.

--Até mesmo perder você (voz que ria, um gesto
que amo), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder não é tão difícil de aprender,
apesar de parecer (Escreva!) parecer um desastre.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

"I'd like a safety net, please."

A insegurança é uma disritmia, um defeito no marca-passo. Uma contra-dança, um tropeço no afã de acertar o passo. É um não-estar por medo do que está por estar. É um freio que impede o desenrolar natural das coisas. A insegurança bloqueia, traz angústia. Povoa o pensamento com idéias tantas vezes absurdas. Cria um universo paralelo. E não te permite habitá-lo. É um exagerar na farinha ou esquecer-se do fermento. Estar inseguro é estar prestes a sair correndo, é fugir antes que apareça o ladrão. Estar inseguro é não se bastar. E será possível bastar-se? As pessoas não serão sempre legais com você; isto é um fato. Mas não dá pra correr do fato de que, de certa forma, somos sempre um pouco escravos do que as mesmas pessoas-nem-sempre-legais pensam e sentem em relação a gente... E volta a disritmia.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Morrer

Inaugurando o mês de Novembro, aquele que já começa com um feriadinho chamado ‘Finados’, nada melhor do que falar sobre morrer. Você faz alguma idéia do que irá passar na sua frente caso morra hoje? Sim, sabe aquele segundo antes de morrermos, no qual (dizem) a vida de cada um passa como se fosse um filme? De acordo com o personagem do Kevin Spacey no filme ‘Beleza Americana’, este segundo se estende como um oceano de tempo. Ao escutar o que ele disse, concluí que nem tudo vai passar na sua frente, apenas o que for relevante. Segue aí o discurso dele ao final do filme. Leiam, reflitam, viajem... E como é difícil não se prender a este sopro que temos de vida. Só isso.

“I’d always heard your entire life flashes in front of your eyes the second before you die. First of all, that one second isn’t a second at all. It stretches on for ever like an ocean of time. For me, it was lying on my back at boys scout camp, watching falling stars. And yellow leaves from the maple trees that lined our street. Or my grandmother’s hands and the way her skin seemed like paper. And the first time I saw my cousin Tony’s brand new Firebird. And Janie… And Janie… And Carolyn. I guess I could be pretty pissed off about what happened to me, but it’s hard to stay mad when there’s so much beauty in the world. Sometimes I feel like I’m seeing it all at once and it’s too much. My heart fills up like a balloon that’s about to burst. And then I remember to relax and stop trying to hold on to it. And then it flows through me like rain and I can’t feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life. You have no idea what I’m talking about, I’m sure. But don’t worry. You will someday.”

(Sempre ouvi que sua vida inteira passa diante de seus olhos no segundo antes de você morrer. Primeiro, esse segundo não é um segundo mesmo. Ele se estende como um oceano de tempo. Pra mim, foi deitar no acampamento de escoteiros e ver estrelas caindo. E folhas amareladas das árvores ao longo da nossa rua. Ou as mãos da minha avó e como sua pele parecia papel. E a primeira vez que vi o Firebird zerinho do meu primo Tony. E Janie (sua filha)... E Janie... E Carolyn (sua esposa). Acho que eu podia estar muito puto com o que me aconteceu, mas é difícil ficar com raiva quando há tanta beleza no mundo. Ás vezes sinto que estou vendo tudo isso de uma só vez e é muita coisa. Meu coração se enche como um balão que vai estourar. E então me lembro de relaxar e paro de me prender a isso. E então tudo flui através de mim como a chuva e não consigo sentir nada além de gratidão por cada momento da minha vidinha estúpida. Você não deve fazer a mínima idéia do que estou falando, tenho certeza. Não se preocupe. Você vai, um dia.)